Texto e foto por Álvaro Perazzoli
Na quinta-feira 4 de agosto um Francisco deixou de ser pai e virou manchete, Jander pedalou por sua última vez e o Martins nunca mais irá trabalhar. Francisco Jander Martins de empresa alguma era presidente ou diretor, mas assim como o empresário Antônio Bertolucci, foi morto por um ônibus enquanto pedalava.
Talvez as emissoras de TV não concordem com uma grande repercussão por ser a vida de um ambulante migrante do nordeste, mas os cicloativistas que saíram às ruas no dia seguinte ao acidente acreditam que a vida de qualquer um tem o mesmo valor. Este não será mais um simples Chico.
Fria, imóvel e pálida, a ghost bike incomoda porque tem cheiro de morte. Em um mórbido e silencioso cortejo que atravessou o coração da cidade de São Paulo, dezenas de Alines, Andrés e Reinaldos conduziram uma bicicleta pintada de branco para simbolizar o desejo de não terem o mesmo destino dos Franciscos, dos Bertoluccis e das Márcias.
E atravessou a rua com seu passo tímido
“Por mais que os ciclistas e pedestres estejam errados, os motoristas devem levar em conta que ali há uma vida e que são os únicos que podem salvá-las”, fala André Pasqualini, cicloativista do Instituto CicloBR.
Pasqualini diz que é necessário saber o que aconteceu para entender que tipo de solução precisa ser adotada para que haja mais segurança aos ciclistas nesta via. “Viadutos e pontes são problemas da cidade inteira, pois são pontos conflituosos e sem alternativa”, concluí.
O Instituto CicloBR tem uma comissão de advogados voluntários que auxiliará a família sem custo algum.
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Os ativistas não se intimidaram com as autoridades presentes. A sinalização “pirata” pintada nas ruas foi feita sob os olhos dos oficiais da Companhia de Engenharia e Tráfego, que nada fizeram.
Um agente da CET, que se identificou apenas como Álvaro, estava dividido entre seu uniforme e a sua razão. No depoimento ele diz que todo mundo tem direito à vida e ela merece ser cuidada. “As pessoas que estão ‘pagando’ por esta manifestação nada têm haver com isso. Tudo que é feito fora da sinalização oficial é proibido”.
Quando questionado sobre o porquê um grupo de ciclistas deve sinalizar por conta própria uma via, o agente responde que os ativistas estão fazendo isso para tentar chegar em uma realidade que dificilmente conseguirão.
“Nosso trânsito é caótico e nossas ruas não são preparadas para bicicletas. Nós não temos lugar nem para pedestres, que dirá para ciclistas”, diz Álvaro tentando ser amigável, mas demonstrando ser incrédulo.
Amou daquela vez como se fosse a última
Como se fosse um aviso, Taís Maria, enteada de Francisco, conta que ele visitou o casal de filhos que mora no interior no final de semana e no dia de sua morte fez um caminho que não costumava fazer.
O terceiro filho estava na manifestação. Os seus quatro anos conheceram a dor, seus olhos confusos não sabiam se choravam ou se gritavam. Com um silêncio tempestuoso, segurou um pincel e pintou de branco sereno o cinza infinito manchado pelo amor vermelho de seu pai.
Com seus olhos embotados de cimento e lágrima ajudou os ativistas a pintarem na via a mensagem de alerta aos motoristas: “Devagar Vidas”.
As faixas e o megafone diziam que naquele lugar morreu um ciclista, mas nenhum grito ou cartaz era tão alto e profundo como aquela criança que olhava para o vazio e pensava em seu pequeno mundo: “aqui morreu meu pai”.
E flutou no ar como se fosse um pássaro
Ele tinha carro mais preferia a bicicleta. Morreu em frente a um pátio da Prefeitura de São Paulo, onde nenhum trabalhador disse ter visto o acidente.
E a sexta ghost bike da cidade foi colocada em uma sexta-feira em homenagem a Francisco Jander Martins que morreu em frente à Praça Francisco Sá Carneiro.
Ao invés de uma cruz, a cidade das máquinas fantasmas, que têm mais direitos que os humanos, ganhou uma bicicleta branca, pois o pecado desse Chico foi preferir a liberdade e sua penitência foi perder a vida no Glicério.
Ao invés de um sepultamento, o corpo branco e frágil suspenso em um dos viadutos mais movimentados da cidade representa a ascensão de talvez uma paz derradeira que enfim vai nos redimir.
Que Deus lhe pague por mais esta vida.
Título e Intertítulos: Fragmentos do poema e música “Construção”, de Chico Buarque de Holanda
Ensaio de fotos completo: https://picasaweb.google.com/UrbanRidersBrasil/


Uma cidade que se espanta não especialmente com o que acontece, mas muito mais a quem acontece.
O Francisco não ambulante, e “ambulantes morrem atropelados pedalando bicicletas”, o que há de espanto nisso ? Nenhum, não esperem repercussão sentida de fato. Me diz quanto você ganha por hora e te digo qual o seu “valor” na sociedade.
E talvez quando houver tantas bicicletas brancas em tantos postes a ponto de constranger turistas curiosos em saber “que arte é aquela ?”, quem sabe então os agentes da CET tenham resposta mais sinceramente sentida e visceral, mais indignada, mais próxima das vozes dos familiares dos Chicos.
abraço, sob lamento.
Márcio Campos